Fantasmas do passado
Foi bom enquanto durou
Eu tinha 28 anos quando conheci o cara que, por quatorze anos, eu acreditaria ser “o grande amor da minha vida”. Nos conhecemos em uma festa na qual eu fui, praticamente, arrastada pelas minhas amigas. Conversamos a noite inteira sem tocar num fio de cabelo um do outro. Quando chegou a hora de eu ir embora, ele nem sequer ainda tinha perguntado o meu nome. Pensei “É gay”. Então, uma amiga minha se perdeu nos braços de um amigo dele e, enquanto esperávamos a cena se desenrolar, ele disse “Tu já vai mesmo embora? Eu ainda não sei o teu nome”. Nos apresentamos e, durante o aperto de mãos, rindo, ele pediu o meu MSN (o WhatsApp do século passado). Pensei “É lerdo”.
Por quase um mês trocamos mensagens. Passávamos o dia inteiro conversando, sobre tudo. Mas nada dele me convidar para sair. Pensei “É indeciso”. Então, quando eu já tinha desistido de esperar por um convite, o convite apareceu. Ele morava e trabalhava em outra cidade, então a logística era um pouco desafiadora. Na primeira tentativa, obstáculos apareceram. Na segunda, planos foram frustrados. Na terceira, saímos para jantar, finalmente. Quando ele me deixou na frente de casa, o tão esperado primeiro beijo aconteceu. E eu soube, naquele instante, que estava ferrada.
Dois anos depois, entre idas, vindas, incertezas e inseguranças, o medo dominou a situação e seguimos caminhos separados. Foi quando entendi o conceito de “pessoa certa na hora errada”. Mais dois anos se passaram e, ainda completamente apaixonada por ele, eu desejei a ele toda a felicidade do mundo quando recebi a notícia do casamento. Por fora, eu estava sorrindo. Por dentro, eu estava morrendo. O homem que eu amava estava seguindo em frente, até o altar, com outra mulher. E eu, dois namorados depois dele, segui solteira. Porque o que eu senti com ele foi especial demais, e não consegui me conformar com menos. Foi quando entendi o conceito “antes só do que mal acompanhada”.
Durante os oito anos seguintes, fiz o que pude para seguir com a minha vida sem lembrar da existência dele. Mas, com mais frequência do que eu gostaria, ele invadia os meus pensamentos, os meus sonhos, fazendo o meu coração bater na garganta. A sensação que eu tinha era que estava sendo assombrada por ele. Eu via o rosto dele no rosto de outros homens. Eu escutava a voz dele chamando o meu nome. Eu sentia o perfume dele no ar. Eu me perguntava se ainda amava ele, ou se apenas estava presa no passado. Talvez eu tivesse desperdiçado a minha chance de ser feliz no amor.
Então, num dia quente de sol, enquanto eu andava de bicicleta e batia um papo com o universo sobre estar pronta para abrir as portas do amor, esbarrei com ele. Pensei “É um fantasma”. Mas não era. Era ele. Em carne e osso e suor. Eu não sabia se estava mais surpresa por ver ele depois de tanto tempo, ou por ver ele se exercitando na minha cidade num domingo de manhã, ou pela coincidência de ver ele enquanto pensava sobre novas chances para o amor, ou por ver refletida no rosto dele a mesma expressão que, eu tinha certeza, estava estampada na minha cara.
Marcamos de nos encontrar depois da revelação do divórcio. Trocamos mensagens. Conversamos. Bebemos vinho. Ele confiou em mim os segredos que mais ninguém em sua vida sabia. Abrimos o coração de uma maneira que nunca tínhamos sido capazes no passado. Sorrimos ao lembrar de alguns momentos. E, com alegria, reconhecemos que algumas coisas nunca mudam, graças a Deus. Tudo isso, sem tocar num fio de cabelo um do outro.
A vida seguiu. Cada um no seu caminho. E quando eu pensava que não voltaria a ver ele, a vida nos levava aos mesmos lugares. Pelos dois anos seguintes de encontros marcados pelo destino, confesso, acreditei que a vida queria nos dar uma segunda chance. Foi quando entendi o conceito “tudo tem o seu tempo”. E o nosso tempo já tinha passado. Eu tinha mudado. A minha versão que era apaixonada por ele já não existia mais. Eu deixei aquela Pâmela para trás no dia em que ele escolheu outra mulher. Quatorze anos depois daquela festa em que nos conhecemos, eu finalmente entendi o conceito “foi bom enquanto durou”.
Pela primeira vez, desde que notei a existência dele no meu mundo, consegui seguir em frente sem sentir a constante presença dele na minha vida. Eu, finalmente, senti que tinha exorcizado o fantasma de um relacionamento do passado. Pensei “Estou pronta para me tornar a velha excêntrica com 72 gatos”. Porque a última coisa que eu queria na minha vida era correr o risco de ser assombrada por outro fantasma. Eu só queria viver em paz, na tranquilidade de um coração livre de assombrações. Para todos os efeitos, eu estava pronta para viver um romance épico comigo mesma.
Mas a vida tinha outros planos e, exatamente um ano depois do meu último encontro ao acaso com o meu fantasma do passado, uma nova assombração apareceu, praticamente do além, perguntando se o lugar ao meu lado estava desocupado. Três dias depois, o primeiro beijo aconteceu. E, de novo, eu soube naquele instante que estava ferrada. Eu já conhecia os sintomas. Já tinha mergulhado fundo naquelas emoções. Eu sabia que algo mágico estava acontecendo e que alguém muito especial tinha aparecido na minha vida. A minha chance, tão esperada e desejada, de ser feliz no amor tinha chegado. Finalmente. Agora, nada nem ninguém seria capaz de nos separar.
Ledo engano meu.
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Eu só espero que tenha parte 2 semana que vem (olhando indignada pra esse final) kkkkkk
Teu texto conversou demais comigo, tô sensível pra esse assunto. Obrigada por ele!